José Felipe, de 12 anos, aprendeu cedo que nem toda água pode ser tocada. Morador do Beco Inocêncio de Araújo, no bairro Educandos, zona Sul de Manaus, ele brinca de pega-pega e esconde-esconde sobre as palafitas. Quando a maré baixa e o igarapé começa a exalar mau cheiro, sabe que é hora de manter distância. “A gente só coloca o pé quando a água tá limpa”, conta.
Veja o vídeo:
José Felipe, 12 anos (Imagens: Ailton Carvalho)
Ao lado dele, Eloísa também contou que cresceu brincando sobre as pontes de madeira. Questionada se preferiria morar em um lugar com mais espaço para brincar, ela responde sem hesitar: “Não. Eu gosto daqui.”
Veja o vídeo:
Na imagem, Eloísa está sentada sobre uma das pontes do igarapé (Imagens: Ailton Carvalho)
A rotina das duas crianças retrata uma realidade compartilhada por gerações de moradores da comunidade. Dona Ivone Lira vive no Beco Inocêncio de Araújo há mais de 30 anos e acompanhou a transformação do igarapé ao longo desse período. Mãe e avó, ela lembra que a água fazia parte do cotidiano das famílias.
“Antes a gente tomava banho e até fazia comida com essa água. Hoje ninguém faz mais por causa da poluição”, relata.
Veja o vídeo:
Dona Ivone conta que a poluição é um dos problemas que mais impactam a qualidade de vida dos moradores (Imagens: Ailton Carvalho)
Quem também testemunhou essas mudanças foi o líder comunitário Gil Cardozo, de 61 anos. Nascido e criado no Educandos, ele afirma que o cenário atual é completamente diferente daquele vivido durante a infância.
“Eu mergulhei aqui, tomei muito banho, bebi dessa água. Hoje isso virou um mar de lama e um grande depósito de lixo”, afirma.
Veja o vídeo:
Os relatos dos moradores dialogam diretamente com o novo Painel Crianças e Meio Ambiente, publicado em 23 de julho pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em parceria com a organização internacional Vital Strategies. O estudo mostra que o território onde uma criança nasce e cresce influencia diretamente sua exposição a riscos ambientais, como saneamento inadequado, poluição do ar, infraestrutura precária e eventos climáticos extremos.
Na avaliação de 5.571 municípios brasileiros, Manaus aparece entre as cidades com indicadores classificados como de alta prioridade para a infância em diferentes áreas ambientais. Ao todo, 333 municípios brasileiros concentram dez ou mais indicadores críticos, enquanto apenas 108 não registraram nenhum indicador de alta prioridade.
Na avaliação de 5.571 municípios brasileiros, Manaus aparece entre as cidades com indicadores classificados como de alta prioridade para a infância em diferentes áreas ambientais. Ao todo, 333 municípios brasileiros concentram dez ou mais indicadores críticos, enquanto apenas 108 não registraram nenhum indicador de alta prioridade.
Para Gil Cardozo, a degradação do ambiente alterou também a forma como as crianças vivem a comunidade. “Eu sou de um tempo em que aqui era nossa área de lazer. Hoje é uma prisão. As crianças ficam confinadas dentro de casa porque não têm para onde ir”, disse.
Veja o vídeo:
O morador Gil Cardoso conta que viveu uma época de lazer no local (Imagens: Ailton Carvalho)
Segundo a pediatra Kamilla Fernandes, especialista em desenvolvimento e comportamento infantil e pós-graduada em Psiquiatria da Infância e Adolescência pelo Hospital Israelita Albert Einstein, crianças e adolescentes apresentam maior vulnerabilidade aos impactos ambientais porque ainda estão em fase de desenvolvimento.
“A infância é um período de intenso desenvolvimento do cérebro, dos pulmões, do sistema imunológico e de outros órgãos. Nessa fase, as crianças respiram mais rápido, ingerem mais água e alimentos proporcionalmente ao peso corporal e têm menor capacidade de regular a temperatura do corpo, o que aumenta sua exposição aos riscos ambientais. Além disso, elas dependem dos adultos para garantir proteção e acesso a ambientes seguros. A exposição precoce ao calor extremo, à poluição do ar e à falta de saneamento pode comprometer não apenas a saúde imediata, mas também o crescimento, o desenvolvimento cognitivo e a qualidade de vida ao longo de toda a vida”, disse a médica.

Amazonas concentra indicadores de alta prioridade
O levantamento revela que 42,4% dos municípios amazonenses apresentam dez ou mais indicadores classificados no nível crítico de atenção. Entre os fatores avaliados estão secas, ondas de calor, chuvas intensas, qualidade do ar, saneamento básico, abastecimento de água, coleta de resíduos e condições de moradia.
Na avaliação da pediatra, esses problemas costumam ocorrer simultaneamente no estado, potencializando seus efeitos sobre a infância.
“No Amazonas, esses fatores se somam e potencializam seus efeitos. A fumaça das queimadas aumenta casos de crises de asma, bronquiolite, pneumonias e outras doenças respiratórias. O calor intenso favorece desidratação, exaustão pelo calor e pode agravar doenças já existentes. A seca dificulta o acesso à água potável e à alimentação, aumentando o risco de doenças infecciosas e diarreicas, principalmente em comunidades ribeirinhas e indígenas. Além disso, esses eventos também afetam a saúde mental de crianças e adolescentes”, destacou.
Além da capital, o painel identifica no interior do estado indicadores ligados à alteração dos níveis dos rios, ocorrência de queimadas, piora da qualidade do ar e deficiência no acesso ao saneamento básico, principalmente em municípios com menor infraestrutura urbana.
Manaus reúne desafios ambientais para crianças
Com população estimada em 2,3 milhões de habitantes, Manaus possui 31,78% de seus moradores na faixa de crianças e adolescentes. O painel aponta que a capital reúne indicadores relacionados às mudanças climáticas, infraestrutura urbana e qualidade ambiental.

Na área da educação, 77,34% das matrículas estão em escolas sem áreas verdes, indicador considerado de alta prioridade por influenciar diretamente a qualidade ambiental dos espaços escolares.

Semed destaca climatização e educação ambiental
Procurada pela reportagem, a Prefeitura de Manaus, por meio da Secretaria Municipal de Educação (Semed), informou que desenvolve ações permanentes para oferecer ambientes escolares mais adequados ao clima amazônico.
Segundo a pasta, as 516 unidades da rede municipal possuem salas climatizadas com aparelhos de ar-condicionado e passam por manutenção preventiva e corretiva.
A secretaria também informou que mantém projetos de educação ambiental por meio das Ocas do Conhecimento Ambiental, com atividades como oficinas, hortas escolares, plantio de mudas, trilhas ecológicas e ações de conscientização sobre sustentabilidade.
Ainda conforme a Semed, essas iniciativas buscam preparar estudantes para compreender os impactos das mudanças climáticas e estimular práticas de preservação ambiental.
Saneamento ainda é um desafio para a infância
Os indicadores relacionados ao saneamento aparecem entre os principais fatores de risco para crianças e adolescentes em Manaus. Segundo o painel, 10,52% das crianças vivem em domicílios com esgotamento sanitário inadequado e 4,79% não possuem acesso à água por rede de abastecimento.

Para dona Ivone Lira, a falta de saneamento faz parte da rotina de quem vive às margens do igarapé. “Aqui tem cobra, tem rato, tem jacaré, tudo que não presta. Tem doença”, afirma.
Veja o vídeo:
Dona Ivone relata que os moradores ficam doentes devido à poluição do igarapé (Imagens: Ailton Carvalho)
Ela também relata que a circulação dos moradores depende das pontes construídas pela própria comunidade. “Isso aqui é nosso caminho. É por onde nossos filhos passam para ir à escola e fazer compra. Quando quebra, é a gente mesmo que conserta”, destacou.
Veja o vídeo:
Gil Cardozo acrescenta que as dificuldades aumentam quando há necessidade de atendimento médico. “Até para retirar uma pessoa doente daqui é difícil. Uma equipe de primeiros socorros não consegue chegar com facilidade”, destaca.
Sobre esse cenário, a Águas de Manaus informou que, por meio do programa Trata Bem, mais de 600 mil moradores já são atendidos pelo serviço.
Veja o vídeo:
Leonardo Ferreira, coordenador de Relações Institucionais da Águas de Manaus (Imagens: Reprodução)
Enquanto moradores relatam dificuldades de acesso e convivem diariamente com o esgoto a céu aberto, a Águas de Manaus afirma que vem ampliando a cobertura de esgotamento sanitário por meio do programa Trata Bem. Segundo a concessionária, mais de 600 mil moradores já são atendidos pelo serviço.
“É um programa, de fato, extremamente extenso e desafiador pelas questões geográficas da cidade de Manaus e os investimentos que nós precisamos realizar”, explicou.
Veja o vídeo:
Ferreira explica como funciona o programa (Imagens: Reprodução)
Criança precisa de qualidade de vida
Na avaliação de Kamilla Fernandes, saneamento e água tratada representam uma das principais formas de prevenção de doenças na infância.
“Saneamento básico e água tratada são intervenções fundamentais para a saúde infantil. Eles reduzem a transmissão de doenças como diarreia, hepatite A, parasitoses e outras infecções, diminuindo hospitalizações e mortalidade infantil. Quando uma criança adoece menos, ela consegue absorver melhor os nutrientes, cresce de forma mais saudável, aprende melhor e tem melhores oportunidades de desenvolvimento físico, cognitivo e emocional”, explicou.
A médica ressalta que os benefícios vão além da prevenção de doenças infecciosas, contribuindo para o desenvolvimento físico, cognitivo e emocional ao longo da vida.
Calor, chuvas intensas e poluição elevam os riscos
O painel também aponta que Manaus registra, em média, 69 episódios anuais de chuvas intensas e 10,8 ondas de calor por ano, ambos classificados como indicadores de alta prioridade.

Outro dado de preocupação está relacionado à qualidade do ar. Segundo o estudo, 53,93% dos dias do ano apresentam concentração de partículas finas (PM 2,5) acima do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Como proteger as crianças
Diante desse cenário, a especialista orienta que famílias adotem medidas para reduzir os impactos ambientais sobre crianças e adolescentes.
- Manter a criança bem hidratada e oferecer líquidos com frequência, especialmente aos menores;
- Evitar atividades ao ar livre nos horários mais quentes e quando houver muita fumaça;
- Manter os ambientes ventilados e, em dias de queimadas, reduzir a entrada de fumaça no ambiente sempre que possível;
- Vestir roupas leves, utilizar proteção solar e nunca deixar crianças dentro de veículos estacionados;
- Manter o calendário vacinal atualizado e reforçar medidas de higiene, como lavagem das mãos e consumo de água segura.
Desafios vão além da capital
Os resultados do painel mostram que os desafios ambientais não se limitam à capital. Com exceção de Manaus, todos os municípios amazonenses estão entre os 10% do país com maior proporção de crianças e adolescentes na população.
Isso significa que políticas públicas voltadas à infância podem beneficiar uma parcela significativa dos moradores dessas cidades, onde também se concentram indicadores relacionados ao saneamento, qualidade do ar, eventos climáticos extremos e infraestrutura ambiental.
Para Kamilla Fernandes, enfrentar esses desafios exige compreender que as mudanças climáticas deixaram de ser apenas uma pauta ambiental.
“Hoje entendemos que as mudanças climáticas deixaram de ser apenas uma questão ambiental e passaram a ser uma questão de saúde infantil. Crianças não são apenas “pequenos adultos”: elas têm necessidades biológicas e de desenvolvimento específicas, que exigem políticas públicas voltadas à proteção da infância. Ferramentas como o Painel Crianças e Meio Ambiente são importantes porque permitem identificar os principais riscos de cada município e orientar ações para tornar escolas, cidades e comunidades mais seguras para meninas e meninos.”
